"Septivium" designava, durante a Idade Média, a totalidade das artes liberais.Constituído pelo "Trivium" e pelo "Quadrivium".Implica que nenhum assunto será vedado.Relembra também as nossas raízes Cristãs.

29
Set 09

 

 

 

Enfim, o mundo não ruiu, o sol levantou-se e ainda estamos todos vivos (pelo menos a maioria).

 

Um mau resultado?

Indiscutível.

 

Digamos, no entanto, que a superioridade da democracia é justamente o poder testar hipóteses e caso elas não resultem rejeitá-las em momentos posteriores.

O ordenamento constitucional mantêm-se. E, diga-se, o cerne da nossa vida seguramente não é, nem será, disposto por qualquer governo.

 

Mas digamos, o resultado do PSD foi mau?

A resposta tende a ser "terrível", uma derrota, e qualificativos similares.

 

Na verdade nunca percebi muito bem a ideia de vencedores e derrotados em eleições.

O que suponho que ocorre em eleições é que, face aos problemas da legislativa anterior e à resposta quer do governo quer, na medida do possível, das oposições, e face aos problemas que é possível antecipar e às propostas de solução dos mesmos apresentadas é feita uma escolha. Ou seja, de quais das propostas irão ser testadas nos anos seguintes.

 

Manifestamente nada de transcendente.

Mais, o tipo de processo pelo qual é feito a escolha, sufrágio universal, não é qualquer espécie de garante de que a solução sobre a qual ela recaíu é a mais razoável.

Não há uma verdadeira discussão racional na qual os diferentes programas são analiticamente examinados. Resulta simplesmente de uma maioria. É claro que, face a uma perspectiva humanista que vê cada um imbuído de uma Razão, e dada a manifesta impossibilidade de proceder a uma aturada análise, custa ver outro tipo de solução.

 

Mas é necessário compreender, parece-me, que a escolha que sai de uma elição não terá maior probabilidade de ser a correcta por isso. Não por acaso mantêm-se os freios institucuinais ao exercício do poder. Não por acaso é ele exercido de uma forma temporariamente datada.

 

Não é isto a assumpção tácita de que o método utilizado é absolutamente falível?

 

Será justamente por isso que existem premissas, axiomas, que aliás, não estão disponíveis a uma mutação por parte do poder. É o direito natural. Surge a montante e é fonte de legitimação do próprio poder. Por maior que seja o consenso, por absurdo, em derrogá-lo, tal não pode ser feito.

 

Significa isto que não vejo qualquer espécie de motivo para substituir a lídeer do PSD.

Perdeu?

So what?!

 

Significa simplesmente que, para já, as suas propostas não poderão ser colocadas em prática. Mas nada de mais sobre o seu valor intrínseco.

 

Mais, face às evidentes alternativas que surgem no próprio partido, muito discutíveis, mantêm-se inquestionavelmente como a mais plausível.

Serena, cautelosa, competente.

O que mais se poe pedir?

 

Ou muito me engano ou as quimeras propaladas pelo vencedor da contenda, no seu típico estilo impressivo e voluntarista, característico de alguém que não se deu ao trabalho de compreender a plenitude da complexidade das questões, mas fica-se por um esquiço grosseiro, devem ter um desfecho dentro de não muito tempo...

publicado por J às 09:56

26
Set 09

 

Enfim, um slogan é um slogan.
Seguramente não é para se levar lá muito a sério.
Quando falamos de um slogan político o que foi dito deve ser entendido com redobrada força. Abundam os desconchavos. E não apenas nos slogans.

Tudo o que tendo a rodear a propaganda política é uma tolice pegada.

Diga-se que a minha memória apenas alcança as eleições ganhas pelo Eng. Guterres, nos quais os tempos de antena, além de concebidos, pela primeira vez, por um publicitário profissional, salvo erro que inclusivamente apresentou programas na Televisão, eram embalados pela banda sonora de um filme. Conhecem bem a coisa. Uma música épica , retumbante. Se na altura dava a impressão que o Eng. Guterres se preparava para redescobrir a América, agora aparente que o Eng. Sócrates se prepara para combater no coliseu. Sim, sei que não estou a mencionar o menino guerreiro, mas aquilo correu tão mal quem nem merece a referência, não acham?

E claro, invariavelmente lá aparecem os apresentadores de TV, e as estrelas de desporto (mas será que a Rosa Mota não se cansa de correr ao lado dos sucessivos líderes do PS?) e os actores de telenovelas (que inclusivamente fizeram uma "perninha" por alturas do patético referendo ao aborto. Recordo-me de ver a criatura que participou naquela adaptação "softcore" do livro do Eça a pretender transmitir, a algum indeciso, a bondade da sua facção. A pergunta, mais se aquela gente realmente se leva a sério, é se existe de facto alguém cuja vida mental, ou ausência dela, lhe permita ser convencido por alguma destas figuras. A mim nem um churro de chocolate me vendiam...).

Agora, sobre o slogan do PSD, "Verdade", há malta que se insurge.
E o que dizem? O costume, "Nazis". Assim. Sem mais.
Como alguém escrevia, quando um esquerdista debate com um conservador a oposição do primeiro ao segundo nunca é só epistemológica. É também moral. Ele não está só errado. Nem sequer porque é estúpido. Não, é preciso mais. O gajo diz isso porque é um sacana dum fascista.

Esta nova esquerda, pós-modernista, inclusive já esqueceu de onde vem.
Na verdade o nosso Marx, não fez as suas lucubrações por problemática moral. A ele não o movia a melhoria das condições do proletariado. Aliás, recorde-se que ele rompe com os grupos sociais-democratas justamente por causa da sua transigência com o capitalismo. No marxismo quanto pior, melhor. Quanto mais degradantes forem as condições do proletariado, mais rapidamente se disseminará a necessidade da revolução.

E esta pouco importa a necessidade meramente moral de justiça social. Não. Ela chega por necessidade científica. Os capitalistas, mesmo que quisessem, não poderiam senão agir rumo à sua auto-destruição. O avento do socialismo está impresso nas próprias leis que regulam a evolução histórica. O capitalismo, na sua própria essência, é autofágico.

Engels, aquando do elogio fúnebre de Marx, defendeu que este tinha descoberto as leis que regiam a história humana., tal como Darwin tinha descoberto as que o faziam em relação à história natural.

A preocupação com a "Verdade", é evidente.

É com o fracasso da visão materialista da História que a extrema-esquerda se torna relativista. (Bem entendido que já, ortodoxamente, o que, inclusive vinha do Hegelianismo, existiam concepções que eram datadas. A serem superadas num momento superior da dialéctica do real. Mas entendamos que isto não se aplicava ao sistema em si. Sim, é verdade que a moral burguesa seria superada, mas o sistema marxista, que se suponha a expressão da inteligibilidade do real - em Engels, numa acepção mística, aliás, a dialéctica humana era mera expressão duma dialéctica mais global. Da natureza tida como um todo.)

Já que o marxismo não é verdadeiro, simplesmente não há verdade.
Todos os sistemas são relativos e não pode ser feita uma escolha entre eles.

Como todos os relativismos, como Platão notava em relação ao de Protágoras, também este é construído sobre areia.

A coerência racional é nula.

Qualquer proposição aspira à Verdade.
Enfim, este é um tema muito complexo e nem sequer me reconheço competência para o tratar, mas num esquiço muito grosseiro o que posso dizer é isto.

Já lá perguntava Pilatos "O que é a verdade?". Para já, não mencionando a resposta óbvia (noutra passagem Alguém explica que é "O Caminho, A Verdade e A Vida.") existem fundamentalmente duas respostas.

A Verdade como coerência.
Digamos, uma dada proposição é verdadeira se não for auto-contraditória e se for congruente com as restantes com constituem o sistema.

A Verdade como adequação do entendimento à realidade.
Uma proposição é verdadeira se descreve uma situação de facto existente.
(Por exemplo, a proposição "O alimento preferido dos Unicórnios são as cenouras." é contraditória porque não existem unicórnios. Digamos, eu não posso apontar para algures e dizer "Aqui está um unicórnio." É uma proposição contra-factual que pode ser entendida como essencialmente falaciosa.)

 

 

Hegel é certeiro quando refere que a Verdade só é verdade quando é conhecida por alguém.
Afinal, estranha Verdade seria essa se não fosse conhecida por ninguém...

Onde se equivoca é que não respeita o carácter igualmente transcendente de Deus. Imanentizando por completo o divino, não abrindo espaço para a transcendência, finitiza o infinito. Todo o horizonte onde o mundo (e Deus) se resolve é o humano.

Como todos os sistemas que pretendem dar conta da plenitude da realidade, são simplificações, meras caricaturas. A realidade não pode ser descrita em pormenor por uma entidade finita, que inclusive lhe é imanente. Essa descrição só pode estar presente ao Ser Infinito, de "fora".

Não obstante o seu carácter ultimamente inatingível, a Verdade mantêm-se sólida como Gibraltar. Mas o conhecimento humano dela é que só pode existir por sucessivas aclarações, por um refinamento das conjecturas e uma eliminação dos erros.

Mas é a Ela, à Verdade, que cabe a última palavra.
Porque o próprio Ser é a Verdade de Si mesmo.

A tentativa de desprezar sequer a tentativa de a alcançar só nos pode remeter para o logro, a ilusão. E seguramente que não terei que recordar como estas, inclusive em política, podem ser perigosas.

publicado por J às 10:32
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Confesso que uma das causas desta minha decisão de criar esta coisa neste momento foi a doce ilusão de que as minhas lucubrações tenham um impacto nas escolhas de domingo... ah, ah, ah... Quem é que acreditou realmente nisto?
Não, nada de tão faraónico.

O objectivo disto é descarregar a "bílis".
Muito mais prosaico, mas bem mais razoável.

Um dos episódios que mais tinta fez correr e mais minutos ocupou nas televisões (aliás, na sua pressurosa tendência para resumirem-se ao "sound byte" mais canhestro) foi a conversa em torno da "procriação", saída da boca da líder do PSD aquando de mais uma discussão lançada por mais um tema da alienada agenda fracturante do Bloco (que aliás, insensatamente, o PS, acicatado pela sua juventude partidária, essas realidades perfeitamente inúteis, toma como seu) sobre o designado "casamento homossexual".

Um dos efeitos mais notáveis do modo como as televisões e a generalidade dos meios de comunicação social se organizam é a sua tendência para reduzirem tudo a um debate típico do pátio de uma Secundária. O que o mesmo é dizer, reduzirem tudo ao nível de um para-analfabetismo. Ninguém perde mais do que 5 minutos a inteirar-se do que quer que seja, o que significa que a maior das opiniões se reduzam ao debitar de fórmulas impressivas, de um jargão convencionado, de uma visão limitada e limitadora da realidade.

Frank Tipler, um nome que irei repetir muito frequentemente neste blogue, conta que a certa altura, num colóquio sobre a obra do Aquinate, o orador refere a problemática, discutida por ele, em torno da ressurreição dos canibais. Um problema, dado que caso a ressurreição fosse realizada por Deus pela reunificação dos elementos constituídos pelos corpos, os dos canibais seriam constituídos pelos de outros indivíduos, o que impossibilitaria a sua ressurreição. Conta Tipler que a audiência se riu ruidosamente.

Ora o que é isso significava? Ignorância. No exemplo dos canibais, Tomás de Aquino pretendia tratar do grande problema de qualquer modelo de ressurreição, ou seja a continuidade da identidade entre o morto e o ressuscitado (não esqueçamos que era justamente aqui que a crítica de Flew incidia). Como argumenta Tipler, qualquer reflexão séria sobre a problemática da ressurreição já há muito teria encontrado o texto de Tomás de Aquino. A risota, motivada pelo primeiro contacto com o exemplo, não aconteceria. Conclui Tipler que a audiência, composta essencialmente por professores de religião americanos, nunca se debruçou sobre a espinhosa questão da ressurreição.

Neste caso da "procriação" a situação é similar.
Quando vou a um qualquer dicionário, o conceito que lhe é associado, invariavelmente surge com esta identificação. "Procriação" é o termo clássico. Com um peso que a sua utilização ao longo da História lhe dá. Nos últimos números da "Brotéria" (em que esta questão é tratada com profundidade), invariavelmente este termo surge.

O repúdio visceral que é sentido ao pronunciar do termo apenas sugere o afastamento da questão e a ignorância dos conceitos. E uma tendência nominalista impressiva que na pura arbitrariedade da sua vontade julga que pode reescrever a própria essência da Verdade.

Já agora quanto à "união de facto" (um neologismo delicioso) a questão é similar.
O meu dicionário não comporta tal termo, mas o conceito que lhe é associado é absolutamente clássico. Privo-me de o escrever, de tão óbvio que é... (E porque não quero, para já!, chocar a sensibilidade das brigadas do politicamente correcto)

publicado por J às 10:30

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